Cinza da casca de arroz, um resíduo considerado problema ambiental, é rico em sílica e pode substituir a areia na produção de vidros.
A cinza oriunda da queima da casca de arroz – um subproduto classificado como lixo agrícola com difícil destinação final apropriada – é a matéria-prima do vidro desenvolvido pelos pesquisadores da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) em projeto do programa de Pós-Graduação em Engenharia. A descoberta foi, inclusive, selecionada para ser apresentada em um programa de cientistas empreendedores promovido entre Brasil e Suíça, com temática de invenções com potencial para serem reproduzidas no mercado.
A casca de arroz é um resíduo farto nas regiões arrozeiras do estado do Rio Grande do Sul, entretanto, estabelecer um destino final apropriado para a casca de arroz é uma tarefa difícil, o que faz com que o resíduo se acumule na empresa, se tornando em um grande problema ambiental. O estado do RS produz cerca de 70% do arroz brasileiro e os resíduos não desejados podem chegar a milhões de toneladas anuais.
Uma das soluções encontradas consiste em queimar a casca de arroz para gerar energia na fabricação de concreto. Porém, não existem grandes alternativas para o descarte das cinzas que resultam desse processo, cenário que chamou a atenção dos pesquisadores. Durante os estudos, perceberam que a cinza da casca de arroz é rica em sílica, mesmo componente presente na areia e fundamental para a fabricação de vidros – além de borrachas, pneus e outros produtos.
– O material mais essencial para fazer o vidro é a sílica. O que a gente fez foi usar esse material e conseguir fazer um produto muito semelhante ao vidro feito com areia – comenta Jacson Weber de Menezes, doutor em Engenharia e um dos pesquisadores envolvidos no projeto. Segundo os envolvidos, o projeto foi desenvolvido em diversas etapas, dentre elas, a administração de processos químicos para anular cores indesejadas até alcançar o vidro com transparência tradicional.
– Tentar chegar em um vidro transparente, além da aplicação que já tínhamos em mente, era para fazer um produto comercialmente viável. Do ponto de vista comercial, é mais interessante o vidro transparente. As indústrias de vidro começam com uma receita, digamos assim, do vidro transparente, e dependendo do cliente eles já sabem o que adicionar para dar a cor desejada – diz Chiara Valsecchi, doutora em Química e também coordenadora do projeto.
Dra. Chiara Valsecchi foi, inclusive, escolhida para representar o estudo e receber treinamento específico ministrado pela universidade suíça St. Gallen sobre empreendedorismo, visando captar recursos e encontrar possíveis parceiros para a aplicação da tecnologia.
Onde aplicar o vidro da casca de arroz?
O vidro da casca de arroz pode ser aproveitado de diversas maneiras, inclusive comercialmente. Uma das aplicações cogitadas para o produto é em forma de microesferas para serem utilizadas em tinta para sinalização viária. O produto faz com que a luz dos carros produza efeito brilhoso na via.
– Além desta aplicação específica que estamos focando, poderia ser qualquer coisa relacionada com vidro, como janela e garrafa. Qualquer tipo de vidro que envolva areia poderia ser substituído pelo vidro da casca do arroz – complementa Jacson Weber de Menezes.
A tecnologia promoveu um pedido de registro de patente junto a INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial e já pode ser contratado via transferência de tecnologia.
De uma forma ou outra, a possibilidade de a técnica ser reproduzida pela indústria vidreira é uma das grandes contribuições do projeto. Apesar de não existir grandes diferenças econômicas entre a areia e a casca de arroz – pois a areia é um material abundante de baixo custo – a utilização das cinzas da casca de arroz para fabricar vidros diminuiria o acúmulo dos resíduos no meio ambiente e a retirada da areia dos leitos dos rios. A natureza agradece muito.